Em 2006, eu estava em São Paulo numa feira de alimentação. Não era para isso que eu tinha ido. Tinha ido para comprar equipamento de cozinha para os meus restaurantes em Salvador. Mas no caminho para o estande que eu procurava, passei por um corredor pequeno, quase escondido, que cheirava diferente de tudo que havia ao redor.

Entrei.

Era um pavilhão de Cafés Especiais. Minúsculo. Provavelmente o menos visitado daquela feira inteira. Sentei, pedi uma xícara, provei — e percebi que nunca tinha tomado café na minha vida.

Quero dizer isso literalmente. Tinha tomado café todo dia desde os doze anos. Mas aquilo que provei naquele corredor não era a mesma coisa. Era complexo, tinha acidez, tinha doçura, tinha algo que eu não sabia nomear mas que reconhecia como beleza.

Naquele dia, sem saber, eu tomei a decisão mais cara e mais prazerosa da minha vida.

O que acontece quando uma pessoa descobre que existe uma versão muito melhor de algo que ela sempre achou comum? A maioria das pessoas acha graça, anota no celular, vai embora. Continua vivendo a vida que vivia.

Eu não consigo fazer isso.

Em setembro de 2006 eu me matriculei num curso de barista em São Paulo. Em novembro do mesmo ano eu abri minha primeira cafeteria num cantinho não muito privilegiado do Shopping Itaigara, em Salvador. Chamei de Feito a Grão.

Dez anos depois, eram dez unidades em três estados. Depois a venda. Depois Israel.

Sim, Israel.

A obsessão pelo melhor café possível tem uma lógica própria. Ela não pergunta se você tem tempo, se é conveniente, se faz sentido financeiro. Ela só aponta a direção e espera que você siga.

Em Tel Aviv, na Avenida Dizengoff, abri o Café Origem. Em Yaffo, montei uma torrefação. E lá, pela primeira vez na vida, pude torrar cafés de países que o Brasil não me deixava importar — Etiópia, Quênia, Colômbia, Guatemala. A legislação brasileira protege a lavoura nacional, e faz bem em proteger. Mas do outro lado do oceano, aprendi o que o café pode ser quando você o compara com todo o resto do mundo.

E o que aprendi foi surpreendente: o café brasileiro é extraordinário. Mais do que a maioria dos brasileiros imagina.

Em outubro de 2024, voltei. Deixei em Israel duas filhas, muitos amigos, um capítulo inteiro da minha vida. Trouxe na bagagem quase vinte anos de trabalho com café — como barista, como dono de cafeteria, como torrador, como importador. Trouxe também a clareza de quem passou tempo suficiente longe de casa para entender o que ela tem de único.

O Brasil produz cafés que rivalizam com qualquer coisa que já provei no mundo. E a maioria dos brasileiros nunca vai saber disso — porque esses cafés são difíceis de encontrar. Exigem viagens, estradas de terra, conversas longas com produtores que acordam antes do sol. Exigem alguém disposto a percorrer Minas Gerais, o Caparaó, a Chapada Diamantina para entender se aquele lote específico, daquela safra específica, é realmente memorável.

Eu sou essa pessoa. Sempre fui.

É aí que entra a Lendas.

Não como intermediária de um mercado qualquer. Como curadoria. Como o resultado de décadas aprendendo a distinguir o extraordinário do apenas bom — e da decisão de parar de guardar esse conhecimento para mim.

A minha missão é simples de enunciar e trabalhosa de executar: oferecer ao brasileiro o melhor café que o Brasil pode produzir. Não o mais famoso. Não o mais caro. O melhor — aquele que encontro viajando, provando, voltando para provar de novo, construindo relações com os produtores que dedicam a vida a fazer algo que a maioria das pessoas vai consumir em trinta segundos sem perceber o que está na xícara.

Mas não para por aí.

Porque de nada adianta ter o melhor grão do mundo se ele vai parar numa cafeteira mal calibrada, num pó de moagem errada, numa água quente demais. O café começa na fazenda e termina em casa — e essa última parte, a que acontece na sua cozinha, importa mais do que as pessoas pensam.

Então, na medida em que for possível e da minha capacidade, quero ajudar as pessoas a transformarem esses cafés nas melhores bebidas que conseguem fazer. Não com jargão técnico. Não com protocolo de laboratório. Com o conhecimento prático de quem passou anos atrás de um balcão, de um torrador, de uma bancada de cupping — e aprendeu, na prática, o que faz a diferença entre uma xícara esquecível e uma que você ainda vai lembrar amanhã.

Há um Marcelo de 2006 que entrou num corredor de feira por acidente e saiu com uma obsessão que não vai embora. E há um Marcelo de hoje que ainda carrega essa mesma empolgação — agora com mais erros atrás de si, mais conhecimento acumulado, e a certeza de que ainda não provou nem metade do que este país tem para oferecer.

 

Isso é o que me move. E é exatamente por isso que a Lendas existe.