Em 2019, viajei para a Etiópia com um grupo de compradores e torradores de café especial. Era uma viagem de imersão — visitar cooperativas, provar lotes, entender o que torna aquele país único na história do café. Estávamos numa cooperativa na região de Sidamo, cercados de cerejas vermelhas e do aroma denso de café recém-processado. Do meu lado, um comprador israelense. Do outro, um alemão. Os dois acostumados a viajar ao redor do mundo atrás dos melhores lotes disponíveis. Aquele era o tipo de lugar onde se espera encontrar a resposta definitiva sobre o que é excelência em café.
Mas o que eu estava testando naquela viagem não tinha nada a ver com o café etíope.
Três anos antes, eu tinha chegado em Israel sem saber muito bem o que esperar. Tinha acabado de vender o Feito a Grão — dez anos, dez cafeterias em Salvador, Aracaju e Recife — e as minhas filhas moravam em Israel. Fui visitá-las. Fiquei encantado com o país. Em novembro de 2016, me mudei com Georgia, minha esposa. Em maio de 2017, abri o Café Origem na Avenida Dizengoff, uma das avenidas mais conhecidas de Tel Aviv. E em Yaffo, montei uma torrefação.
Foi quando algo que eu já sabia se transformou em algo que eu senti.
No Brasil, a importação de café verde é proibida por lei. Eu conhecia essa regra. Sabia que ela existia para proteger a lavoura nacional — e sempre achei que fazia sentido. O que eu não tinha dimensionado, em tantos anos de café no Brasil, era o tamanho do que ficava do lado de fora dessa cerca. Um torrador que só conhece café brasileiro é como um sommelier que nunca saiu da França. Competente. Apaixonado. Mas com um mapa incompleto.
Em Israel, de repente, o mundo inteiro estava disponível. Comprei lotes da Etiópia, do Quênia, da Colômbia, da Costa Rica, da Guatemala. Provei cafés que eu só conhecia de nome — os Yirgacheffe etíopes com acidez floral impossível, os AA do Quênia com aquele cassis intenso e limpo. Eram experiências sensoriais que eu nunca tinha tido. E foi exatamente por isso que a coisa ficou interessante.
Tel Aviv não é uma cidade que perdoa mediocridade em café. Há torrefações com microlotes de todas as origens possíveis. O consumidor israelense tem acesso a tudo — e discernimento para avaliar. Não era o tipo de mercado onde você sobrevive por conveniência ou localização.
Ao longo de oito anos, nossa loja online em Israel acumulou 2.200 clientes. Número expressivo para um negócio pequeno num mercado estrangeiro. Mas
o número que me interessa mais é outro: cerca de sessenta desses clientes compraram conosco mais de trinta vezes. Alguns chegaram a sessenta compras.
Eram israelenses, europeus, pessoas que tinham acesso a qualquer café do mundo — e continuavam voltando para a mesma torrefação. Compra após compra. Não por falta de opção. Por escolha.
Foi por isso que fui à Etiópia em 2019. Não como turista do café, mas como alguém que precisava confrontar algo. Eu já tinha servido os melhores cafés etíopes disponíveis no mercado israelense. Já tinha visto clientes voltarem compra após compra. Mas eu queria conhecer e provar os lotes na origem, no lugar onde o café nasceu como cultura e como espécie, antes de chegar a uma conclusão.

O que encontrei naquela cooperativa em Sidamo foi extraordinário. A qualidade era real, a história era real, o terroir era inegável. Mas o que entendi — depois de dias provando lote após lote — é que o café etíope e o café brasileiro não estão em disputa, da mesma forma que um Bordeaux e um Chianti não estão em disputa entre si. São linguagens sensoriais diferentes. O etíope tem florais e cítricos de uma intensidade que o Brasil raramente atinge. O brasileiro — o café de altitude das Minas Gerais, do Caparaó, da Chapada Diamantina — tem corpo, complexidade e doçura natural de uma forma que a Etiópia raramente alcança.
Não era uma competição. Era uma conversa entre iguais.
Voltei ao Brasil em outubro de 2024 por questões pessoais. Pensei em trabalhar em outro setor por um tempo. Conhecer outras áreas, desacelerar. Mas no fim de 2025, peguei o carro e fui rever produtores com quem tinha relações antigas — em Minas Gerais, no Espírito Santo, na Bahia. Provei lotes que me deixaram sem palavras. E entendi que não tinha como fazer diferente.
A Lendas trabalha exclusivamente com cafés brasileiros. Não é só uma restrição — virou uma tese. A mesma tese que comecei a formular numa cooperativa na Etiópia, em 2019, rodeado pelos melhores cafés do mundo. A mesma que sessenta clientes em Tel Aviv foram confirmando, compra após compra, durante oito anos.
O Brasil pode produzir — e consumir — cafés à altura dos melhores do mundo. Precisei sair do país para ter certeza disso.
Marcelo Szporer
